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sábado, 7 de junho de 2014

Aproveite ao máximo a leitura deste blog!



Seja bem-vindo ao blog que narra uma das histórias mais fantásticas das Maratonas Aquáticas no Brasil.
Como acontece em todos os blogs, seus textos são escritos em ordem cronológica e os mais antigos vão ficando mais longe da primeira página, onde está registrada a postagem mais recente. Ao querer conhecer a história em ordem cronológica, o leitor deve ler o blog de baixo para cima, isto é, buscando primeiro os textos mais antigos e ir progredindo na história, lendo os textos mais recentes.

Pois se você está interessado em conhecer a organização prévia e a preparação para a prova, comece pela primeira postagem entitulada "Como tudo começou". Para ler as postagens seguintes (mais recentes), vá até o final do texto e clique em "Postagens mais recentes" - elas lhe serão assim apresentadas uma a uma, na sequência correta. Há diversas situações inusitadas neste período e lições de perseverança e conquistas que foram essenciais para o sucesso do projeto.

Se você deseja conhecer em detalhes como se deu a Maratona Aquática de 170 km - o evento em si - comece pelo "Capítulo 1". Vá subindo no blog de capítulo em capítulo (clicando em "Postagens mais recentes" ao fim da página) até o de número 20, onde se dá o fechamento do projeto. É garantia de encontrar uma história absolutamente diferente de tudo o que você já viu!

Se quiser conhecer uma reportagem com fotos incríveis do Rio São Francisco, vá para a postagem "Braçadas vitais". Trata-se de um apanhado desta grande Maratona Aquática, seus motivadores e outras de minhas experiências relacionadas a travessias natatórias de grande monta.

Obrigado por sua visita. Espero que aprecie a leitura.

Percival Milani

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Cap.20 - Hora de festejar

Isso o povo nordestino sabe fazer muito bem.
Antes mesmo de nossa chegada, já era possível ouvir os fogos de artifício ecoando pelos ares. Ao pisar em terra firme, um breve diálogo com o Prefeito Israel e sua esposa, que foram de uma gentileza inenarrável. Além da conversa agradável, eles nos premiaram com uma linda estátua feita em barro pelo povo local e um pacote de informações sobre a cidade de Penedo que é talvez a mais desenvolvida do estado após a capital, Maceió.
Ao seu lado, o Capitão Alexandre, maior autoridade da Capitania dos Portos de Maceió, que nos apoiou incondicionalmente em nosso projeto - a infraestrutura da Marinha que nos acompanhou foi autorizada por ele - também nos recebeu com sua enorme simpatia, um forte aperto de mão e um grande sorriso no rosto. Gentilmente ele nos ofereceu uma camisa polo dry-fit na cor azul clara com a insígnia da Marinha simplesmente chiquérrima que eu uso com muito gosto e ótimas recordações!
E a alegria não parava, agitada pelo ritmo dos grupos locais, repletos de gente bonita.

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Havia uma grande faixa com os dizeres: "Sejam bem-vindos" - e aquilo tudo era para nós! Estávamos muito felizes por ter chegado e pela valorização dada ao nosso projeto.
E a festa continuava firme e forte. Pensando bem, se nós nadamos mais de trinta horas para chegar ali, não custava nada eles dançarem uma horinha, não?

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Até mesmo a música tema da vitória do Ayrton Sena foi entoada:

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No calor da recepção, aproveitamos para dar algumas entrevistas para a imprensa local e, ao final de tudo, tiramos uma foto com nossos companheiros de TV, que cobriram nossa largada de Piranhas e nossa chegada em Penedo.


Nós não esperávamos tudo aquilo. A repercussão em toda a região foi muito grande. Afinal, aquele bando de cinco destemidos nadadores estava ali para defender a mesma causa pela qual a população ribeirinha também lutava: a conservação do Rio São Francisco.

Hora de descansar. Hora de tomar um bom banho, o suficiente para retirar a vaselina das articulações e rumar para um almoço gentilmente oferecido pela cidade de Penedo.


Através daquela simplória janela, uma vista deslumbrante para o rio, que era de tirar o fôlego. Coisa que não estamos acostumados em nosso dia-a-dia e que valem a viagem à região. Só faltou a Canoa de Tolda singrando aquelas águas...


Ao final, as despedidas de nossos anfitriões e a separação do grupo. Em poucos minutos eu já me dirigia, na companhia de meu irmão Pérsio, em direção de sua residência, em Aracaju. Deixei para trás uma região que me acolheu com extrema generosidade. Deixei um grupo que teve seus percalços, mas soube levar os objetivos de nosso projeto à frente. Levei comigo a alma profunda e indelevelmente tocada por impressões amplamente positivas.
Missão cumprida - e comprida também!
Em nome do grupo, agradeço a todos os que nos acompanharam e nos apoiaram nessa jornada - local ou remotamente. Até uma próxima ocasião, se Deus assim o permitir.

Cap.19 - A etapa final

Marcamos nossa saída para as sete da manhã, aproximadamente. Aquele seria um dia especial, onde passaríamos por experiências diversas. Podemos destacar a passagem por baixo da ponte logo no início do dia, a cobertura pela TV Gazeta de Alagoas e nossa chegada em Penedo, a maior das cidades visitadas ao longo de nosso trajeto.
A largada seria o mesmo ponto onde aportamos no dia anterior. Havia um pequeno grupo de pessoas no local - a maioria deles envolvida com nossa logística - que foram muito prestativos conosco. Ali ao lado o barco local nos esperava enquanto nossos amigos colocavam na água o jet-ski da Marinha e o barco dos Bombeiros. Só havia um probleminha, de difícil solução. Vejam a seguir o nosso grupo defronte ao barco disponibilizado pela prefeitura e prestem bastante atenção à foto para perceber o enorme e quase intransponível problema que se apresentava:


Aquilo poderia ser considerado um cataclisma natural, uma afronta e até mesmo um despautério! O barco tinha um emblema do Corinthians logo ali, embaixo da cabine do piloto. Foi um golpe baixo para o moral dos nadadores! Mas no esporte nem tudo é alegria. Tínhamos que aprender a superar os problemas e ali estava mais um deles.
Não está na foto acima, mas logo à esquerda, descendo o rio, encontraríamos a ponte. Dá sempre uma adrenalina mais forte passar sob pontes. A discussão naqueles dias era por qual lado deveríamos passar. Pela direita, sob o arco metálico, dizia-se que a profundidade era mais adequada, mas a correnteza era mais forte. Pela esquerda, estaríamos mais próximos das regiões de remanso do rio, onde as ilhas começam a surgir evidenciando um misto de beleza natural e o temor dos assoreamentos provocados pela ação do homem. (Acabamos passando pelo lado direito, com mais correnteza, mas infelizmente encontramos alguns intensos sinais olfativos da intensa presença humana na região por ali.)
Saímos sob os acenos amigos da população local e iniciamos nossa última etapa. A estratégia do dia seria a de nadarmos todos juntos - desta vez, era pra valer. A pressão pelo tempo era menor, já estávamos ambientados ao rio e projetávamos uma duração de um pouco mais de seis horas para superar o trajeto de 35 km que nos separava de Penedo.
Naquele ponto, o Rio São Francisco cortava a Zona da Mata, região conhecida por maiores índices pluviométricos, que se traduziam em paisagens mais verdes em seus arredores. A topografia também era mais plana e, ao longo do caminho pudemos ver vários campos de pastagens. Em determinados momentos onde nos distanciávamos um pouco mais uns dos outros - dentro do que poderia ser considerado tolerável para o conceito de "nadar juntos" - lembro-me de um diálogo curioso que tivemos, ao esperar o Tarzan e o Fabio, que vinham um pouco atrás e próximos a uns boizinhos que pastavam sossegadamente num grande campo às margens do rio. Para passar o tempo e nos divertir, tentávamos imaginar a conversa entre o Tarzan (afinal, ele era o Rei da Selva, ou melhor, o Rei do Cangaço) e o boi. Seria mais ou menos assim:
- Mim Tarzan. Você, boi.
- Muuuuuuuuuuuu, ele retrucaria de volta.
- Mim nadar. Você, pastar.
- Muuuuuuuuuuuuuuuu - enfaticamente, é claro!
- Mim ir embora. Você, ficar.
- Muuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu - já entoado com saudades...
Logo descobrimos por que eles vinham mais atrás - o Fabio estava com algum mal estar. Acho que era um pouco de dor de cabeça. Disponibilizamos todo o nosso arsenal de medicamentos - eu mesmo havia trazido dúzias deles, para os mais variados fins - para que ele tomasse o que mais lhe ajudasse. Enviamos o recado através dos Bombeiros e logo ouvimos notícia de que estava tudo sob controle.
O rio era bem largo naquela região. Sua profundidade era baixa - por vários quilômetros, nadávamos com cerca de três metros de água apenas, mas, por vezes, se mergulhava numa escuridão imensa, indicando um aprofundamento repentino de sua calha.
A esta altura do campeonato, já havíamos desenvolvido várias técnicas para analisar a direção da correnteza. Uma delas incluía mergulharmos até o fundo do rio, tocar suas areias e observar a nuvem que se levantava e que direção ela tomava. Para nossa surpresa, no entanto, nem sempre a direção indicada pela areia estava alinhada ao percurso que se vislumbrava na superfície. Aprendi mais tarde, fazendo minhas experiências, que a correnteza poderia estar levando o nadador para uma grande depressão na calha do rio. Era um momento em que as areias claras eram substituídas por uma cavidade enorme e escura. Não era bonito de ver, mas era o que tínhamos pela frente.
Nadamos com bastante tranquilidade nesse trecho. Um fato curioso ocorreu após umas 3 ou 4 horas de prova. Foi quando eu ouvi um zum-zum-zum danado proveniente de nosso pessoal de apoio. Eles estavam gritando entre si, sinalizando algo que deveria ser importante. Parei de nadar e olhei para trás e quase não acreditei no que vi. O Foschini havia se desviado gradativamente do caminho, virando, virando, virando, até que ele começou a nadar contra a correnteza. Isso mesmo - ele começou a subir o rio e nem se deu conta. E o pior: ele estava levando o Alessandro consigo!
Aquilo foi muito engraçado. Eu não conseguia parar de rir. Esperei o Foschini se achegar e não podia perdoar essa. Afinal, ele vivia dizendo que eu nadava torto - o que não deixa de ser uma verdade - e agora a situação se invertia. Não pude deixar de comentar carinhosamente como estava acostumado a ser tratado por ele:
- E aí, Pedro Bó! Querendo levar o Alessandro pra casa pelo rio? (O Alessandro é mineiro e é o que mora mais perto da nascente do Rio São Francisco.)
Como resposta eu ouvi algumas palavras desconexas e absolutamente insuficientes para justificar tamanho desvio de rota.
O ritmo nesta última etapa foi bastante tranquilo. Eu nadava, mergulhava até o fundo do rio para pegar conchinhas e espalhar a areia. Dava até para admirar um pouco da paisagem. Não tínhamos pressa, pois estávamos nadando todos próximos.
Chegando próximo à cidade de Penedo, o vento começava a importunar e a formar alguns maretões. Ainda assim, o ritmo era adequado para cumprirmos nosso horário. Até o ponto onde ficamos no meio do rio, em volta do barco dos bombeiros, esperando a equipe da TV chegar para nos filmar nesta etapa final. Ficamos ali papeando pelo menos uns trinta minutos - se não mais - matando o tempo. Dava para se avistar a cidade de Penedo ao fundo, no lado oposto do rio. Curiosamente, a largura do rio era aparentemente muito grande nesta região. Mas o que eu não havia visto era que Penedo ficava ligeiramente acima do ponto onde estávamos, isto é, teríamos que subir uma parte do rio para chegar até lá.
Mas como seria possível descer o rio e, ao avistar a cidade, ela já ter ficado para trás? Muito simples. Tão simples que não foi percebido por nós: havia uma ilha enorme no meio do rio e havíamos tomado o lado errado da ilha para nadar. Se, à montante da ilha, tivéssemos escolhido descer por seu lado esquerdo, daríamos de frente com a cidade. Como estávamos do outro lado, teríamos que subir uma parte do rio.
Depois de terminada a travessia, eu me perguntava por que eu não havia visto isso antes. Vejam o mapa do Google que eu consultei e isto ficará claro.


Como se vê (ou não se vê), havia muitas nuvens que nos impediam de identificar a ilha antes de Penedo. Vejam agora uma foto de outro satélite da mesma região, sem as nuvens.


Agora a ilha ficou bastante visível, não? Pois é. Faltou conhecimento e estudo do trajeto. Eu não estivera antes na cidade e desconhecia totalmente o fato. Talvez o Foschini pudesse conhecer, mas ele não se manifestou em momento algum sobre a rota alternativa.
Após uma certa espera, o barco trazendo os cinegrafistas da TV Gazeta chegou e pudemos retomar nossas braçadas no trecho final. Nadávamos todos juntos para aparecermos todos na mesma tomada da filmagem. Mas a fama dura pouco e logo tivemos que voltar a encarar o ocaso de nosso desafio, que nos reservava uma situação inesperada: subir o rio algumas centenas de metros.
Eu não fazia a menor ideia que estávamos subindo o rio. Sentia que estava fazendo mais força que o normal e que o rendimento não era o mesmo, mas estava lentamente avançando em direção ao meu objetivo. Logo cruzei com o Fabio que, ofegante, me disse que não iria conseguir chegar naquelas condições. Para minha surpresa, o barco da prefeitura encostou e, um após outro, foi arrebanhando os cinco nadadores para uma ajudinha de alguns metros rio acima. O nadador se agarrava às defensas do barco e ele os rebocava arrastando-os pela água. Aquilo não deve ter durado nem mesmo um minuto e nos impulsionamos lateralmente no casco do barco para nos afastarmos do mesmo e, com isso, evitar ser puxados por sua hélice, situada na popa. Ainda restavam algumas poucas centenas de metros até a chegada. Por estarmos nadando contra a correnteza, não havia espaço para esmorecimento. Impus um ritmo forte, aproveitando o máximo possível a excursão de meus braços, com ampla rotação de ombros e forte batida de pernas. Ainda estava sobrando energia. Pensar que logo estaríamos chegando era extremamente recompensador.
Aos poucos observei a margem e os contornos das construções tomando forma. Nos poucos momentos em que a cabeça estava fora da água, era possível ouvir os fogos de artifício estourando no ar em nossa homenagem.
Havia uma balsa ao lado do local de chegada - uma grande chata que fazia a travessia de carros e pedestres entre Alagoas e Sergipe. Eu estava chegando à jusante da balsa, enquanto a chegada estava à sua montante. O barco da Marinha veio para me reorientar e apontar o caminho. Eu sinalizei que entendi sua orientação, mas meu trajeto fora proposital, com o objetivo de conseguir nadar um trecho na sombra da balsa. Faltava pouco, mas os metros finais foram nadados na direção oposta à correnteza - não mais obliquamente à mesma - o que aumentou a dificuldade do trecho. As lembranças dos longos treinos nadados nessas horas me deram toda a autoconfiança necessária para chegar ao final. Mas estava sobrando braço naquela hora!
Parei a poucos metros da chegada. Havia autoridades ali para me receber. Percebi que eu era o primeiro a chegar. Os pés já alcançavam o leito do rio. Olhei para trás e procurei por meus companheiros, mas em vão - naquela imensidão de água não era possível visualizar os demais nadadores. Lentamente me encaminhei em direção à margem, onde uma mão amiga se estendeu e me deu a firmeza necessária para finalmente colocar os pés em terra firme.
Como disse o padeiro pro John Lennon: "o sonho acabou". Agora era a hora de comemorar. Fui recebido pelo prefeito de Penedo e a primeira dama, assim como pelo Capitão Alexandre, da Capitania dos Portos de Maceió. Havia tendas montadas, com a banda local, a Fênix, tocando músicas locais e muitos jovens dançando em nossa homenagem numa festa linda e inesquecível. A população local também compareceu em peso para prestigiar. No meio da multidão pude logo avistar o Pérsio, meu irmão, que viera de Aracaju para me recepcionar e compartilhar de nossa alegria.
Poucos minutos depois chegaram meus companheiros: Rodrigo Cavalcante (Tarzan do Cangaço), o Alessandro e por fim, juntos, o Fabio e o Foschini.
Independentemente das distâncias nadadas por cada um de nós - meus 170 km, o Fabio, Alessandro e o Tarzan com admiráveis 153km e o Foschini com seus 118 km - o sucesso do projeto estava na mensagem que trazíamos em comum: "Preservem o Rio São Francisco!"

A descrição da festa eu deixo para o próximo capítulo. Não percam!



Cap.18 - Preparações para o último dia

Ficamos bem acomodados naquela pousada, providenciada pelas autoridades de Porto Real, mas em território sergipano. Sim, apesar de termos chegado na cidade alagoana, esta nos acomodou na cidade de Propriá, no estado vizinho. Isto somente foi possível por que havia uma ponte ali pertinho que unia os dois estados.
Ao longo dos quase 210 Km do baixo São Francisco, só conhecemos duas pontes entre Sergipe e Alagoas: a primeira delas fica à montante da cidade de Piranhas e nós, nadadores, não tivemos o "prazer" de passar por debaixo da mesma nadando. A ponte era esta:


Veja um pequeno vídeo de como se comporta o Rio São Francisco nessa ponte, entre Piranhas (AL) e Canindé de São Francisco (SE).
Primeiramente, à montante da ponte:

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E agora, à sua jusante:

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Como se vê, a trubulência é grande nessa região e não se recomenda a ninguém tentar nadá-la sem conhecer muito bem a real conformação do leito do rio, as vazões de Xingó (uma vez que ela fica a poucas centenas de metros à jusante da barragem), o nível das águas e outras variáveis. Cada perturbação que se vê na superfície indica que existe alguma estrutura rochosa sob a água que a provoca. Percebe-se que em alguns pontos, a água faz um movimento rotacional e volta a subir o rio, formando os famigerados e frequentemente mencionados redemoinhos. Certamente é uma região muito mais ameaçadora do que as temidas Caçamba e Mateus descritas em nosso primeiro dia de travessia.
Enfatizo que nossa travessia não incluía passar por baixo desta ponte e, de fato, não o fizemos.
A segunda ponte, próximo da qual estávamos lotados ao final do terceiro dia, apresentava uma conformação do Rio São Francisco bem mais comportada, com poucas corredeiras e perturbações que poderiam preocupar um nadador consciente em busca de segurança absoluta, nossa grande prioridade. Nossa pousada ficava a menos de uma centena de metros desta segunda ponte:


Ao final daquela tarde já estávamos liberados para nos programarmos para o dia seguinte. Não sem antes fazermos uma nova reunião de planejamento com nossos inseparáveis ccompanheiros da Marinha e do Corpo de Bombeiros de Alagoas. As perguntas que não queriam calar eram: por que nós combinamos uma coisa no dia anterior e fazíamos outra? O tema era recorrente e dizia respeito naquele dia às atitudes do Foschini, que deixou de nadar com o Alessandro, distanciou-se desnecessariamente do grupo, não procurou mais a alimentação provida pelos barcos de apoio nos quilômetros finais e entrou na região portuária de Porto Real sozinho, correndo perigo de ser atingido por alguma embarcação local. Eu não tinha a resposta a todas essas perguntas, pois não diziam respeito a mim. Só podia responder por minha atitude de acompanhar o Alessandro quando percebi que ele fora deixado para trás pelo Foschini.
No dia seguinte, perguntei ao Foschini o que tinha acontecido e comentei com ele das chamadas que eu havia levado, sem ter direta responsabilidade por tudo aquilo. Entre uma história aqui e outro depoimento ali, pude juntar os fatos e percebi que a rivalidade estabelecida entre o Foschini e o Fabio naquela fatídica noite em Traipu, onde, entre ofensas pessoais, um desafiou o outro e eles quase saíram no braço, era a real razão da corrida desenfreada de ambos no terceiro dia, que os levou a nadar forte e até mesmo recusar a alimentação nos dez ou doze quilômetros finais. Um crianção de 62 anos e outro com seus trinta e poucos competiam entre si para provar quem era o melhor. De um lado, aquela situação fez-me rir tamanha a sua infantilidade - de outro, deixou-me deveras preocupado pois a segurança da prova fora deixada de lado - e o pior, por seu principal organizador! Isso foi pior que o "Na hora a gente vê."
Ainda na pousada propriense, passamos o Fabio e eu mais alguns momentos emocionantes na cozinha preparando nossas maltos em meio a um ambiente que não era nenhum primor de limpeza e que, por essa razão, nos proporcionava a companhia de insetos repugnantes semelhantes aos já descritos em Pão de Açúcar. Aquela experiência me deixou extremamente comedido e seletivo no café da manhã do dia seguinte - talvez com muita "vitamina B", se é que estou sendo claro...
Naquela mesma noite tive a chance de falar com o meu irmão Paulo, que conseguiu me encontrar no celular. Algumas das cidades por onde havíamos passado não tinham sinal adequado e nossa comunicação ficou bastante comprometida. Passei para ele uma rápida atualização dos fatos, que foram repassados ao restante da família. É sempre bom sentir o apoio da família!
O grande sucesso natatório até aquela etapa era muito mais importante do que os eventuais percalços de nossa aventura e estávamos ávidos pelo quarto e último dia.

Cap. 17 - O terceiro dia

Acordamos BEM TARDE naquele terceiro dia: cerca de cinco e meia da manhã!!! Foi muito bom para dormir um pouco mais. O astral ficou mais leve assim. A recepção do pessoal de Traipu foi muito boa - um café da manhã para muita gente circulando por ali que eu nem conhecia e que foi muito rápido. Eu mesmo cheguei meio atrasado e não deu para comer adequadamente.
Arrumamos os mantimentos preparados no dia anterior - eu e o Fabio por aqui e o Alê por lá - e fomos atrás do gelo solicitado ao pessoal em terra. Aconteceu que, desta vez, o assistente da prefeitura não conseguiu trazê-lo e ficamos sem gelo. É a profecia mais uma vez: do que adianta a cidade se dizer pescadora se o gelo não chega a tempo para nossa largada? Por sorte nossa, havia duas pedras grandes de gelo no freezer que repartimos - uma para a minha mala térmica e outra para a do Fabio. Mas a temperatura da malto naquele dia estaria comprometida, com certeza.
Antes de sair, a decisão que deveria ser tomada na noite anterior ainda estava pendente. Quem iria nadar junto com quem? O Foschini sugeriu que ele iria nadar com o Alessandro e os outros três deveriam formar o segundo grupo.
Era mais que óbvio que esse esquema não iria funcionar, pois o ritmo de nado dos dois - Foschini e Alessandro - eram muito diferentes entre si. Eu tentei contra-argumentar, mas não havia clima para discussão: a equipe estava dividida - naquela altura do campeonato, o Foschini só não havia discutido com o Alessandro. Com  base nessa divisão, repartimos as maltos entre os dois barcos - novamente teríamos um da prefeitura e um dos Bombeiros para estar de acordo com os nadadores que seriam acompanhados.
Nossa largada naquele dia foi bastante festiva - tiramos fotos com nossos anfitriões, o sol já brilhava forte, o astral da cidade era muito positivo.

Nossas simpáticas anfitriãs de Traipu com nossos inseparáveis amigos Bombeiros.

"É nóis na fita", com nossos anfitriões de Traipu, momentos antes da largada.

Novamente entramos naquela imensidão de rio, em direção ao infinito. O bom de se fazer uma travessia de grande monta é isso: você começa a nadar e não vê o final. Tudo o que você sabe é que ele está muito longe!
Esse trajeto prometia ser mais fácil que no dia anterior - nada seria pior, eu posso afirmar. Mesmo assim, sabíamos que alguns maretões seriam inevitáveis. Nosso objetivo: a cidade de Porto Real do Colégio, situava-se 33 km  rio abaixo.
A cidade leva este nome por que ela recebeu a visita do Imperador D. Pedro II em sua excursão pelo São Francisco lá pelos idos de 1859, isto é, há algumas poucas semanas atrás. Rsrsrs.
Entramos na água com o pesar de uma despedida. A recepção e a estadia que nos foram oferecidas foram simplesmente inesquecíveis. Levaremos ótimas lembranças da cidade. Como se vê na foto acima, às sete da manhã o sol já brilhava forte. Iniciamos nossas braçadas lentamente até estabelecermos um ritmo de prova - aquele ritmo que o nadador é capaz de manter por horas a fio dentro de uma estabilidade de seu condicionamento físico.
Nesta região, o Rio São Francisco já era bem mais raso, não havia corredeiras nem redemoinhos, mas os maretões estariam por lá - já nos haviam avisado sobre a inevitabilidade de encontrá-los no meio do caminho. Em vários pontos, o rio mostrava sua vastidão, abrindo suas margens ao passo que avançávamos.
Assim seguimos nadando - na configuração inicialmente proposta - o Alessandro e o Foschini vinham um pouco atrás, não mais do que uns cem ou duzentos metros.
Nos raros momentos em que estávamos todos juntos, a parada para alimentação era uma verdadeira festa, no sentido literal da palavra. Eu me mantive fiel à minha dieta de malto, assim como o Fabio também. Mas, depois da malto, comer um docinho ou um pêssego em calda não fazia mal a ninguém. Eu provei um de cada - não mais do que isso. O Foschini comia os docinhos de mão cheia - enfiava a mão no pote e, quantos saíssem ele comia.
O mais curioso e motivo de muitas risadas no grupo era a ginástica toda que tínhamos de fazer para ficarmos juntos ao barco. Nós nos agarrávamos a ele como podíamos e éramos arrastados pelo atrito com a água - parte pela correnteza, parte por sua motorização.

Aproveitávamos o momento para "retocar a maquiagem", isto é, passávamos um pouco de protetor solar no rosto ou, como se vê o Alessandro na foto acima, usávamos Hipoglós também com esta função. (Não, ele não está enfiando o dedo no nariz, pessoal!)

Como de costume, começou a ventar entre 9 e 10 horas da manhã e os maretões se apresentaram. Neste momento eu estava ao lado do Fabio, que espontaneamente falou:
- Oba! Lá vêm as ondas. Hora de ondular. Vamos ondular, pessoal!
Foi muito bom ouvir aquilo, por que numa única palavra - ONDULAR - ele conseguiu demonstrar a técnica a utilizar para se reduzir - nunca eliminar - os problemas para nadar em meio a ondas intensas. E assim o fiz. Percebi que o ritmo que eu ondulava deveria estar em consonância com a frequência das ondas que chegavam.
Eu já havia tomado aulas com o Agnaldo - meu técnico em minha Travessia do Canal da Mancha - e também com o Glauco Rangel - experiente nadador de águas abetas -, mas nunca havia conseguido transformar seus conselhos em  menor atrito com as ondas. Ali no Velho Chico eu consegui descomplicar e ondular.
O rendimento aumentou - estava muito mais fácil pelo aprendizado e pelos maretões, que foram mais comportados neste dia. O rio mostrava-se mais sinuoso. Uma curva aqui, outra ali, uma ilha no meio, algas em vários pontos.
Como a água estava bastante mexida, fica mais difícil de acompanhar visualmente a posição de todos os colegas. Assim, o Fabio e o Tarzan se descolaram de mim na segunda metade da prova. O Foschini, que vinha atrás com o Alessandro, passou por mim e seguiu firme em frente. Eu reduzi o ritmo, aguardei o Alessandro, que logo se achegou e fomos nadando juntos até o final.
Mais uma vez nossos mantimentos, que estavam divididos de um jeito entre os dois barcos, passaram a ser distribuídos aos nadadores em momentos diferentes. Eu podia ver que o Foschini, o Fabio e o Tarzan estavam bem à frente pela posição do barco que os acompanhava - era o barco grande da prefeitura de Traipu. Conosco seguiam os bombeiros. Minha malto estava no barco à frente, que de tempos em tempos tinha que voltar para me alimentar. Ainda bem que as distâncias naquele dia eram as menores, senão poderíamos ter problemas maiores.
Nos últimos dez quilômetros de prova, perdemos o contato visual com os três que estavam à frente. Havia algo ali que os motivava a nadar mais rápido e que eu não conseguia entender. Eu e o Alessandro mantivemos nosso ritmo.
Próximo à chegada em Porto Real havia uma ilha que dividia o rio em duas metades. Não sabíamos ao certo de que lado entrar. Fomos pela direita e logo o barco dos Bombeiros veio nos avisar que seria melhor irmos pelo outro lado, pois a entrada da cidade estava se aproximando. Nadamos subindo o rio uma centena de metros para poder contornar a ilha e voltamos a encontrar o leito do rio forrado com aquelas algas espessas que não nos davam espaço para nadar. Era uma sensação horrorosa, nadávamos para lá e para cá em busca de um canal de água sem algas, mas a região era infestada com os rabos-de-raposa.
A entrada da cidade estava a uns quinhentos metros de distância e já percebíamos um ou outro barco diferente dos nossos circulando nas redondezas. Motivo de atenção redobrada para nossos amigos da Marinha e os Bombeiros, sempre preocupados com nossa segurança.
Quando chegamos à cidade, havia uma pequena rampa de concreto com um degrau submerso que nos conduzia a uma grande área cimentada onde nos esperavam um sem número de pessoas e as autoridades locais - aí inclui-se também a prefeita da cidade. Os últimos metros, só para brincar, eu nadei no estilo borboleta.
Havia uma multidão ali à nossa espera. Enquanto o povo queria prestar-nos uma pequena homenagem e combinar o local onde faríamos um belo almoço, meus pés ardiam no calor do cimento e a situação estava ficando difícil de suportar. Ao mesmo tempo, tínhamos que dar atenção aos nossos anfitriões e resistir bravamente à temperatura local. Quando o grande barco finalmente aportou, pedimos ao Eugênio, que cuidava de nossas coisas, que nos trouxesse os chinelos para aliviar o problema. São pequenas coisas que podem ter um grande impacto na hora H.
Após mais de hora de cumprimentos, arrumação e ordenamento das ideias torrando sob o forte sol do São Francisco, fomos conduzidos à nossa pousada, onde pudemos tomar banho e almoçar junto aos nossos anfitriões.

Calorosa recepção em nosso almoço ao chegarmos em Porto Real do Colégio.

Foi o primeiro dia em que tivemos tempo para descansar um pouco mais. Terminamos o almoço depois das 16 horas e estávamos liberados para nossa preparação para o último dia.